PRIMEIRA PARTE

Sempre acreditei que meninos são anjos na sua inocência e nunca deveria sofrer.
Menino, aura luminosa de anjo envolvente, do livre correr despreocupado.
Tempo breve de encantamento de um lindo entardecer.

POR SER MENINO (BADU)

Conto para você uma historia real de um menino cheio de vida, de família grande e humilde: 11 irmãos e seus pais.
Menino franzino ,dos rudes brinquedos por ele mesmo feito, herdeiro de alegrias,mas que precisou enganar a dor e ser forte.
Fria manhã de doze de outubro,sem livros chega a escola,para com todos colegas e professores comemorarem o dia da criança.
Em liso gramado do orvalho corriam em brincadeiras e em saltos cada qual tentava alcançar os doces que eram jogados ao alto.
Pequeno menino é jogado ao chão com a brutalidade que o destino pode traçar,na fragilidade de seu corpo chora por dor e é levado para casa e sua mãe cuida com carinho pensando ser somente descuido de criança.
Suporta por mais dois meses muita dor,chora noites em silencio acreditando logo passar. E o ano finda e ele passa de ano.

*Oito anos somente, em campo cheio de vida, na sombra de um tropeço, buscou erguer seu corpo na luz de um novo começo.

A OITAVA PRIMAVERA - BADU


Por não ser dengo de menino, é levado ao medico que constata um deslocamento da perna que precisaria ajeitar.
Uma simples cirurgia é feita sem muito sucesso.
Já estudando agora na segunda serie precisa novamente voltar aos hospitais onde com 8 anos de idade experimenta desumanas crueldades desferidas ao seu corpo.
Perfuram sua perna de um lado ao outro com um ferro que atravessa o osso e nas extremidades colocam cordinhas com um peso de 4kg, na idéia de por a perna no lugar.
Dias e noites enclausurado em um mórbido quarto de hospital,febres e alucinações que o enfraquecem mais.

*Já sufoquei minha lágrima molhando o travesseiro, porque homenzinho não chora.
Adormeci com visões febris me assustando, com alucinações se apoderando de meu sono e precipícios sem chão.

HOUVE UM TEMPO-BADU


Ato selvagem que lhe provocava magoas e medos.
Perdia –se nas orações que sabia rezar,rogava a Deus para logo acabar.
Dias se passam e a saudade de seu mundo parece se apagar junto com o colorido da primavera que se perde.
Nova decepção ao ver que inutilmente sofrerá essa agressão.
Médicos arrancam o ferro e com gritos de dor, por que a anestesiaera inútil tamanha infecção alastrada.
Estaria novamente em casa se na paciência ficasse (por que lhe fizeram crer que homenzinho precisava ser valente e não poderia chorar).
Novamente chega em casa e com o corpo todo engessado que o impossibilita de movimento, fica 72 dias na cama.
É reprovado na escola por números de faltas e seus amigos se afastam assim como parte de seu sorriso.

*Voltava ao meu paraíso,
empalidecidas asas
sem o brilho dourado,
anjo acuado sem saber voar.
Em meu olhar fixava aos poucos
todo encanto.

VERDES DIAS-BADU


Ao poucos vai se recuperando, já poderia andar com dificuldade, mas nunca mais poderia correr.
Volta a escola e ao seu mundo agora limitado, mas reencontra a vida e um jeito de se adaptar e seus amigos já não desejava conquistar.
Solitárias brincadeiras,sem jogo de futebol ,banhos de riacho... algumas vezes, bolinhas de gude. Somente o apreciar outros meninos correr.
Levava uma vida feliz mesmo que agora fosse entre casa e hospitais, e até mesmo que em sonhos de liberdade.
Por muitas vezes com sua mãe em, noites frias ou madrugadas de névoas, estava em filas de hospitais a espera de uma consulta.
Despertava por vezes deitado no colo de sua mãe, sentado em banco frio de concreto, com a claridade do sol batendo em seu rosto.
Ouvia o canto dos pássaros como um canto estridente... um deboche. Preferia não escutar. -Já é manhã meu filho, logo vamos consultar e voltar pra casa. É sua mãe enquanto faz carinho em seu rosto e lhe mostra proteção.
Precisava voltar, estudar, brincar e viver como qualquer menino.
Com quase 11 anos fez a primeira comunhão e já iniciava a quinta série.
Então teve nova decepção, seria outra vez levado ao hospital e ali provaria outra vez todo tipo de sentimento.

*Dividimos lágrimas,
meu anjo por piedade,
em mim vertida mágoa!
Envolve-me em suas asas
e voltamos para casa

SOMBRAS DO ANOITECER -BADU


Sofria com navalhas que cortavam seu corpo e o temor das ásperas agulhas ferindo para tirar uma dor já sentida. Dor que manchava a pele e magoava seu coração.
Chorava por vezes de saudade da casa e pela ausência de sua mãe; que por vezes não podia ali com ele estar.
Chorava por que as paredes brancas do hospital não tinham vida e ele queria ver seu campo de vasta cor , sentir o cheiro e a beleza da liberdade.
Guardava para si toda lágrima para não ver sua mãe com ele sofrer. Janelas fechadas apagando seus sonhos...
Tinha inicio uma doença que iria levando seus movimentos e roubando lentamente sua liberdade.
Com muita dificuldade, continuou seus estudos e com auxilio de muletas pode concluir a sétima serie. Já com 15anos .

Aprendeu viver e aceitar como a vida lhe mostrava ou ditava regras.
Assim fazia de suas tardes um refugio na beira do riacho, solitário e encantado mundo só seu.

*O sol do meio dia ainda impera quando busco a plácida tarde, na sombra das árvores, na beira do riacho.
Indiferente a uma carência de um afeto amigo vai me envolvendo na cativa sensibilidade presente nesse meu refúgio.

PESCADOR DE SONHOS.
BADU


Fantasiava seu vôo, com as libélulas ricamente ilustrando esse lugar.
Toda magia em energia e paz juntava para si, guardando em seu coração.
E com 16 anos entregaria seu passos e com todas as forças lutaria ainda um pouco mais.
Ainda possuía muitos movimentos do corpo e com 19 anos jogaria suas ultimas esperanças.
Antes concluiria a oitava serie e depois faria cirurgias que ainda lhe restavam como ultima opção.

Com 20 anos fizera a sétima cirurgia e muitas infiltrações nos joelhos e pernas.
A negativa do medico em voltar a andar, jogou-o em uma cama e por muito tempo o isolou da liberdade e anulou seus sonhos.
Conto pra você a estória de um menino que correu atrás de uma liberdade.
Não viveu as peraltices de crianças e descoberta do ardor de um adolescente.
Adiou seu primeiro beijo, sentiu, só adulto, refrescante banho de chuva e como menino sorriu de contentamento.

*A vida adiou seu primeiro beijo e seus passos pararam outra vez, deixando marcas em seu corpo e mágoas no coração.Seus pés não podem mais tocar o chão.

MEU CAMINHO-BADU


Construiu em seu quarto um mundo livre de ampla liberdade, esculpindo em suas paredes cores da paz, morada de real felicidade.
Conto então a estória de um menino que vive em seu quarto, precisa do auxilio para muitas coisas mas, muito faz para si.
Que aprendeu com as limitações, com as armadilhas da vida e com dias turvos de dor.

*Rogo ver o desabrochar de vida
que aqui plantei,
esculpidas flores
em verdes paredes desse quarto.

OFERENDAS-BADU


Que sofreu com as perdas... seu irmão voou distante.
Irmão que lhe carregava nos braços, lia pra ele e o enchia de carinho.
Com a ausência de seu pai... agora que também se faz em descanso de sua contínua dor.

*Manchado vermelho corado, sangra o aceno
já esperado, e no negrume de quem
partiu sem poder falar o adeus.

EM COR LILÁS-BADU


Dor da lágrima de sua mãe, que luta sem desistir de lhe fazer sorrir.
Sempre acreditando em um sonho, mesmo que remoto, de fazê-lo andar... sem saber que já lhe ensinou voar.
Abro a porta desse quarto e apresento a você esse menino agora já em corpo de homem, mas sentimentos puros de menino.
Poetizando a realidade, contando a sua historia, agradecendo o dom da vida.
Esse é Badu e essa é sua historia e você já faz parte dela.

*Amo ser esse menino que enganou a dor
e encontrou o amor.

 

 

 

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soundback: declamação de Marcos Sérgio T. Lopes

 

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