Mariza Lourenço

Hoje...


Amanheci sob o peso de uma ausência de quarenta e oito horas; não que ele tenha estado presente  antes disso ou que seu corpo tenha desabado sobre o meu nos últimos trezentos e sessenta e cinco dias.
Mas um monstro deu início à queda da minha  casa e me corrói o estômago pelas beiras.

Sinto dor e medo.
Tesão e frio.

Assim, feito represa ameaçando romper a barreira  de todas as conveniências.
Nas últimas quarenta e oito horas sonhei  com sua boca e, dentro dela, sua língua.
Sua língua lambia as minhas aflições.

Sua língua... sua língua... sua língua

Sua língua me lambeu nas últimas quarenta e oito horas.

Hoje...

Amanheci sob o peso de saudades outras...de todas as mulheres que sou e fui.

Hoje...

Amanheci escorrendo sangue; porque é de sangue a lágrima que escorre e é de carne e sangue a alma que machuca.

 

 

 

 

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