Mariza Lourenço

Com o meu corpo curvado em prece
sobre claves de um altar desconhecido,
peço à Santa, Virgem dos Meus Mistérios,
que — com os meus olhos de amante —
me mostre os caminhos dos meus pecados.
E se com eles teus acordes tocam músicas,
que me revele a Virgem, Mãe dos Meus Segredos,
se é tua aquela boca que me sussurra
feito um cravo rouco,
se são tuas aquelas mãos que me fazem orar
junto a um coral de anjos.
Possa eu em minha reza fazer um pedido:
ver dedilhadas em meu umbigo
as cordas de paco,
bandoneons tocando tangos.
Peço também, a Deus,
que em meus seios tua língua ande
profana, quase santa.
Que entre minhas coxas encontre o início
de um desejo entoado em glória.
E, se depois me ainda for possível
ser pastora de milagres,
— como Valquíria —
em minha entranha o cavalgar do falo,
toda a ânsia de ver nascer o fruto.
Nada mais rogo
do que contigo acabar-me em gozo
na explosão dos movimentos
de uma nona sinfonia.
E, por tudo,
agradecida e contrita,
amo.

Amém.

 

 

 

 

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